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Campo dos Sonhos

Campo dos Sonhos
Levaremos para sempre na memória aquela manhã de 13 de novembro de 2012. Um dia que poderia terminar como outro qualquer não fosse pelo despertar provocado por uma pequena multidão que, ordeira e pacífica, atiçava a curiosidade das pessoas que passavam pelo Largo de Roma. Entoando cânticos e orações, pacientes, médicos, profissionais, voluntários, alunos e religiosos das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) uniram-se, de corpo e alma, em uma solidária marcha em direção a um sonho. Com lágrimas nos olhos, acompanhei aqueles seguidores do Anjo Bom da Bahia, que movidos pela fé, tinham como único propósito semear a esperança para colher o bem. A curta distância percorrida, do Santuário de Irmã Dulce ao campo de futebol do Sesi, trazia enraizado um desejo que há mais de uma década ainda teimava em arder em nossos corações: a necessidade de espaço para ampliação da assistência aos pobres e doentes. Imbuídos dessa certeza, chegamos ao portão do campo levando o pedido de que fosse ali o local de construção da nossa futura Unidade de Quimioterapia e Radioterapia. De fato, graças à sensibilidade dos gestores do Ministério da Saúde, nas pessoas do ministro Alexandre Padilha e do secretário de Assistência à Saúde, Helvécio Magalhães, e do Governo do Estado da Bahia, através do secretário da Saúde, Jorge Solla, já tínhamos os equipamentos e os recursos necessários para, enfim, erguer as paredes de uma casa que proporcionaria a inúmeros pacientes um acesso mais digno e humanizado no tratamento do câncer – chaga esta que já representa a segunda causa de morte no Brasil. Faltava-nos somente o chão para fincar o sonho. Mas como aprendizes de uma mulher de fé constante, que não se deixava abater diante dos obstáculos da vida, resolvemos ultrapassar o portão e ocupar simbolicamente o campo de futebol, certos de que a semente de amor e solidariedade plantada há mais de 70 anos pela Bem-aventurada Dulce dos Pobres continuava a germinar humanidade. Um gesto ousado e iluminado para os dias de hoje, mas que remete aos atos de coragem e desprendimento perpetuados na memória e na história das gerações que conviveram com Irmã Dulce. Ela que peregrinou durante uma década, levou seus doentes de um local a outro, até, por fim, instalá-los no espaço do galinheiro do Convento, embrião do Hospital Santo Antônio – hoje um dos maiores complexos de saúde 100% SUS do país, com mais de mil leitos. A partir de então passamos a vislumbrar no verde daquele gramado o símbolo da esperança de cura para pacientes em tratamento do câncer. Desde aquela pequena procissão, juntaram-se então outros anjos à caminhada, a exemplo da presidente das Voluntárias Sociais, Fátima Mendonça, querida madrinha dessa causa que soube acolher, com presteza e generosidade, os anseios do povo de Irmã Dulce. Pois bem, decorridos exatos 146 dias desde a histórica ocupação, ficamos revigorados no último dia 08 de abril (Dia Mundial de Combate ao Câncer) com o anúncio feito pelo governador Jaques Wagner, de que o campo será entregue em breve às Obras Sociais Irmã Dulce. O que era apenas um projeto embrionário, que foi acalentado quando da visita da presidenta Dilma Rousseff à OSID, em outubro de 2009, já tem agora previsão para nascer em uma segunda ocupação, dessa vez de operários que em setembro darão início às obras de construção da unidade. Com inauguração prevista para junho de 2014, o Centro de Oncologia terá 1.600 m2 de área construída e irá abrigar 10 consultórios, 18 leitos e modernos aparelhos para o tratamento oncológico. O sonho virou realidade. A lição de esperança e coragem de Irmã Dulce continua a dar frutos, nos fazendo lembrar que o amor ao próximo supera tudo e de que novos sonhos ainda estão por vir. Afinal de contas, é ela mesma que ainda hoje, 21 anos após sua ausência física, continua a inquietar e mobilizar corações ao dizer: “Se fosse preciso, começaria tudo outra vez, do mesmo jeito, andando pelo mesmo caminho de dificuldades, pois a fé, que nunca me abandona, me daria forças para ir sempre em frente”. Artigo de Maria Rita Pontes, Superintendente das Obras Sociais Irmã Dulce, publicado no jornal A Tarde, na edição de 11/04/2013