Parte importante do apostolado de Irmã Dulce, a história do prédio onde hoje funciona o seu Santuário teve início no dia 28 de novembro de 1948. Com a presença do então presidente do Brasil, Eurico Gaspar Dutra, a religiosa inaugura o Círculo Operário da Bahia, que oferecia à população da periferia de Salvador serviços como consultórios médicos, dentários, laboratórios, farmácia, cursos de corte e costura, sapataria, alfaiataria e marcenaria, lazer e ensino básico para os filhos dos trabalhadores (ela instalou no prédio a Escola Santo Antônio).
A relação com a classe operária começou em 1935 quando Irmã Dulce fazia peregrinações por Alagados na companhia do frei franciscano alemão Hildebrando Kruthaup. Os dois costumavam visitar as fábricas do bairro de Itapagipe, na época região com forte presença fabril e operária. Da vontade de melhorar a vida da classe, Irmã Dulce partiu para sua organização, ajudando a fundar a União Operária São Francisco, primeiro movimento operário de Salvador.
A partir da doação pelo Empório Industrial do Norte de um terreno no Largo de Roma, Irmã Dulce e frei Hidelbrando partiram para o desafio de angariar fundos para a construção da nova sede. As dificuldades da obra não a abateram. No início de 1948 se interpôs na comitiva do presidente Dutra, que estava a caminho do Bomfim, driblou os batedores e impediu sua passagem. A visão da pequena e decidida freira sensibilizou o presidente. Com a ajuda da irmã Dulcinha, que empreendeu uma verdadeira peregrinação no Rio de Janeiro para viabilizar os recursos, Irmã Dulce supervisionou pessoalmente a construção e pôde enfim materializar seu sonho.
Para promover a auto-sustentação do Círculo, ela construiu no local o Cine Roma – um dos três erguidos para manter o Círculo, os outros foram os Cines Plataforma e São Caetano. O Círculo Operário perdeu sua força com a politização do movimento operário e o fortalecimento dos sindicatos. Até sua desativação na década de 60, funcionou paralelamente ao Cine Roma, desativado em 1985.
O Cine Roma está marcado na memória dos moradores de Salvador como um dos templos de sua cultura. Inaugurado em 27 de novembro de 1948, desde 1983 não é mais palco de shows de cantores como Roberto Carlos, Raul Seixas, Jerry Adriani, Wanderléia ou Waldick Soriano ou das imensas filas para assistir aos filmes que causavam furor nas décadas de 50 e 60 do século passado. Os anos 70 viram a decadência gradual do espaço, como reflexo da expansão de Salvador rumo aos novos bairros do além Comércio.
Os dois primeiros filmes exibidos foram "Diabo Branco", com Rossano Brazzi e Annete Bach, e "Cordas Mágicas", além dos dois primeiros capítulos da série "A sombra misteriosa". Pela telona do Roma desfilaram divas das 'estranjas' como Rita Hayworth e Doris Day e também tropicais como Norma Benguell e Leila Diniz. Apesar do apelo das estrelas, os filmes quase sempre eram ‘fitas de família’, comédias, aventuras, filmes católicos como "Marcelino Pão e Vinho", de bang-bang, piratas e épicos.
A tristeza com o fim do Cine Roma já era refletida pelos jornais de Salvador no final dos anos 70. Assim se referiu o Jornal da Bahia, em 11 de outubro de 1979, aos bons tempos do cinema: "Os três portões centrais do Cine Roma eram abertos para acolher um ansioso público que, em filas quilométricas, contava os minutos que faltavam para assistir a um grande filme ou a um show do seu ídolo preferido". Há quem recorde o tempo em que Jerry Adriani agitou a Cidade Baixa, cantando no Roma. Também havia público para Waldick Soriano, que "dilacerava corações". O operariado tinha gosto variado, e o Cine Roma era do operariado também.
Os primeiros freqüentadores do cinema eram trabalhadores da classe média da Cidade Baixa, principalmente. Além de pessoas residentes no subúrbio ferroviário, que iam de trem até a estação da Calçada e, de lá, andavam até o Roma para assistir a um bom filme. Como relatam Geraldo da Costa Leal e Luis Leal Filho, no livro "Um Cinema chamado Saudade", era comum que, à noite, chefes de família, em companhia das esposas, freqüentassem o Roma.
O cinema fundado por Irmã Dulce e pelo frei Hildebrando Kruthaup tinha a função de garantir fundos para o Circulo Operário da Bahia e não se restringiu apenas à exibição de filmes, tendo intensa atividade sociocultural. Não faltaram festivais de música, peças teatrais, congressos e até concursos de beleza. O Cine Roma foi marcado por sua versatilidade e chegou a ser chamado de "Templo do Rock" na década de 60.
As sessões da Jovem Guarda, comandadas por Waldir Serrão, o Big Ben, aconteciam sempre pela manhã, evitando interrupções nas programações normais do cinema. Nessa época Raulzito e seus Panteras despontavam como a melhor banda de rock da cidade. Nos anos 60 muita gente cantou no Roma: Jerry Adriani, Wanderléia, Renato e Seus Blue Caps, Ângela Maria, Caubi Peixoto, Marlene, Quarteto em Cy e Emilinha Borba. E também o Rei Roberto Carlos que em 6 de junho de 1965, cantou pela primeira vez na Bahia, e no Cine Roma. O "Rei" foi acompanhado pelos Panteras.
Irmã Dulce sempre deu incentivo aos amantes do rock'n'roll da Cidade Bahia. Nos tempos em que a Jovem Guarda se apresentava no Roma, eram comuns os excessos e, ao final de cada espetáculo, algumas cadeiras quebradas. A direção do Círculo Operário queixava-se à freira que sempre 'passava a mão na cabeça' de Waldir Serrão e permitia os encontros da turma que tanto agitava o cinema.
Raul Seixas registrou em sua biografia a importância do Cine Roma na época de grande rivalidade entre a turma da Jovem Guarda e os amantes da Bossa Nova. "A Bossa Nova estava arretada em Salvador. E era uma guerra. De um lado o Teatro Vila Velha, de outro o Cinema Roma, que era o templo do rock", disse Raul.
Construído em dois níveis, o prédio do Cine Roma equivalia em tamanho ao Pax e ao Jandaia, e tinha capacidade para 1850 espectadores. O prédio é um exemplo soteropolitano da arquitetura Art Déco. O movimento que representou a adaptação pela sociedade de massa dos princípios do cubismo se manifestou na arquitetura, nas artes plásticas, no design gráfico, e no design industrial a partir da década de 1920 e ganhou força nos anos 30 na Europa e nas Américas. Edifícios, esculturas, jóias, luminárias e móveis são geometrizados.
No Brasil, o movimento influenciou artistas como o escultor Vítor Brecheret (1894-1955) e o pintor Vicente do Rego Monteiro (1899-1970). Uma obra de Brecheret fortemente influenciada pelo art déco é o Monumento às Bandeiras, em São Paulo.
Na arquitetura art déco, as fachadas têm rigor geométrico e ritmo linear, com fortes elementos decorativos em materiais nobres. Dois exemplos são o Empire State Building e o Rockefeller Center, em Nova York.
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